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Em Florianópolis, sangue raro chega de São Paulo para atender paciente com anemia falciforme

Foto do escritor: Jornal comunidade SC
Jornal comunidade SC
há 23 horas
4 min de leitura

Duas bolsas de sangue raro chegaram a Santa Catarina para atender uma paciente com anemia falciforme internada no Hospital Infantil Joana de Gusmão, em Florianópolis. O material foi recebido na madrugada de sábado, 24 de outubro, após uma solicitação do Centro de Hematologia e Hemoterapia de Santa Catarina (HEMOSC) ao Banco de Doadores de Sangue Raro, em uma mobilização que envolveu serviços de hemoterapia de diferentes regiões do país.

A necessidade de encontrar um doador compatível torna esse tipo de atendimento especialmente complexo. Em determinados perfis sanguíneos, a compatibilidade pode ocorrer em apenas uma a cada 100 mil pessoas, o que exige uma rede de doadores cadastrados e cooperação entre instituições para localizar e transportar o material adequado.

Como o estado de saúde da paciente permanece estável, as duas bolsas recebidas de São Paulo ficarão reservadas para uma eventual transfusão. O material poderá ser mantido por até 42 dias, respeitando as condições de conservação e o prazo de validade.

A reserva poderá beneficiar a própria paciente ou outra pessoa que precise do mesmo perfil sanguíneo raro, em Santa Catarina ou em outro estado. Caso as bolsas não sejam necessárias para esse atendimento, elas poderão ser disponibilizadas para outros pacientes. Segundo o HEMOSC, quando faltarem cinco dias para o vencimento, o material será liberado para utilização em outros atendimentos. Se não houver necessidade de uso específico para o fenótipo raro, as bolsas também poderão ser utilizadas normalmente em pacientes com sangue O negativo, conforme a compatibilidade transfusional.

A chegada do material ocorre em um contexto de mobilização nacional para garantir transfusões a pessoas que precisam de características sanguíneas específicas. Em 2026, o HEMOSC já enviou cinco bolsas de sangue raro para outros estados e recebeu quatro.

O transporte também passou por uma mudança importante em 2026: um acordo formalizado entre a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e as companhias aéreas permitiu que esse tipo de material fosse transportado gratuitamente na cabine de aviões comerciais, em vez de seguir como carga comum. As bolsas são acondicionadas em embalagens apropriadas, com controle rigoroso de temperatura entre 1 °C e 10 °C, para preservar as condições necessárias durante o deslocamento.

A mobilização ganha destaque em outubro, mês em que o Dia Nacional de Luta pelos Direitos das Pessoas com Doença Falciforme é lembrado em 27 de outubro. A data chama a atenção para as necessidades de quem convive com a doença, inclusive a dificuldade de encontrar sangue compatível em determinadas situações clínicas.

A anemia falciforme é uma condição genética e hereditária que altera a hemoglobina, proteína responsável pelo transporte de oxigênio pelo organismo. Com essa alteração, as hemácias — células vermelhas do sangue — podem assumir um formato semelhante ao de uma foice, tornando-se mais rígidas e frágeis.

Essas células podem dificultar a circulação sanguínea e se romper com maior facilidade, provocando anemia, dores e outras complicações. Em alguns casos, a transfusão é necessária para corrigir a anemia ou tratar situações graves. Quando o paciente apresenta características sanguíneas específicas, encontrar um doador compatível é essencial para a segurança do procedimento.

Estima-se que entre 60 mil e 100 mil pessoas tenham doença falciforme no Brasil. No mundo, a Organização Mundial da Saúde estima que 7,74 milhões de pessoas convivam com a condição, com quase 80% dos casos concentrados na África Subsaariana. Embora seja mais frequente em pessoas pretas e pardas, a doença pode ocorrer em pessoas de diferentes origens étnicas.

A identificação de sangue raro envolve uma análise que vai muito além dos tipos sanguíneos mais conhecidos, como A, B, AB e O, positivos ou negativos. A Sociedade Internacional de Transfusão de Sangue reconhece 49 sistemas de grupos sanguíneos, 398 antígenos e 2.001 variações genéticas. Essas características ajudam a explicar por que duas pessoas podem apresentar tipos sanguíneos aparentemente compatíveis, mas ainda assim precisar de uma avaliação mais detalhada antes de uma transfusão.

Um perfil sanguíneo é considerado raro quando aparece em menos de uma a cada mil pessoas testadas. Em situações mais específicas, como a que motivou o envio das bolsas para Florianópolis, a chance de encontrar uma pessoa compatível pode ser ainda menor.

Para facilitar a localização de doadores, o Cadastro Nacional de Sangue Raro foi criado em 2013. A rede reúne 2.032 doadores registrados e já atendeu mais de 300 pacientes. O programa conecta bancos de sangue e serviços de saúde para localizar material compatível quando os estoques convencionais não atendem às necessidades de determinado paciente.

A logística também tem papel importante nesse processo. No ano passado, a Central Nacional de Transplantes intermediou 2.016 transportes, sendo 1.716 em voos comerciais e 300 em aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB). Embora esses números se refiram ao transporte de materiais no âmbito da Central, eles ajudam a dimensionar a estrutura logística utilizada para atender demandas de saúde em diferentes regiões do país.

Em Santa Catarina, o HEMOSC é responsável por atividades de hemoterapia e integra a estrutura da Secretaria de Estado da Saúde. O órgão é gerido pela organização social FAHECE e participa da rede nacional de cooperação para o atendimento de pacientes que necessitam de sangue compatível.

No caso da paciente internada no Hospital Infantil Joana de Gusmão, em Florianópolis, as duas bolsas recebidas permanecem disponíveis para eventual utilização. A reserva também permite que o material seja direcionado a outras pessoas que precisem do mesmo perfil sanguíneo, caso não seja necessário para o atendimento inicial.

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